Histórias de uma vida
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Histórias da minha vida contadas sobre o meu ponto de vista. A minha versão.


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Minha versão

outubro 05, 2003
 
“Confissões de Adolescente”

[Esta é apenas uma das versões de uma pequena história que tenho vivido (há pelo menos mais 3 versões de grande parte dessa mesma história, cada uma contada por uma pessoa diferente).]

Ano passado, quando eu estava no cursinho, não conhecia quase ninguém, passava a maior parte do tempo sozinha com meus pensamentos e meus estudos. Eu sempre chegava cedo, ainda com a sala vazia (precisava garantir meu lugar porque a disputa era acirrada). Havia outras duas meninas que sentavam umas 2 ou 3 fileiras à minha frente e também chegavam cedo. Eu sempre ficava as observando pois estavam sempre rindo. Uma dessas meninas era muito divertida, falava pra caramba, ria de tudo. A outra era mais quieta, mais ouvia. Eu sempre tive vontade de me aproximar delas, de conhecê-las mas nunca tive coragem, dada minha timidez excessiva e meu isolamento “para passar na faculdade”.
O ano passou e eu sempre observei-as de longe. O ano acabou e achei que nunca mais iria vê-las – havia perdido uma ótima oportunidade de conhecer pessoas legais...
Mas aí, quando entrei na faculdade, logo no 1º dia da semana de recepção, vi uma dessas meninas – a mais calada – a X. Ela também tinha passado e eu teria mais uma oportunidade de conhecê-la.
Nosso 1º contato foi numa bagunça, quando todos estavam pintando as caras antes de entrar na Atlética. Ela e uma outra caloura estavam num canto, meio escondidas, evitando toda aquela meleca de tinta. Fui até lá, peguei as duas pelas mãos e as “introduzi” na bagunça.
A partir daquele momento, fomos nos conhecendo e ficamos mais próximas. Como eu tinha imaginado: ela era realmente legal.
Porém, um problema estava surgindo: nós andávamos em três eu, ela e a C. No início nos dávamos muito bem, mas com o passar do tempo eu e a C tivemos alguns atritos. O jeito dela, suas atitudes (que nem vale a pena comentar) começaram a me irritar profundamente e mal eu agüentava ficar perto dela. Mesmo assim, tolerei por um tempo razoável pois eu adorava a X e sabia que se eu me afastasse da C, iria sozinha pois elas tinham uma relação muito mais forte entre elas do que comigo (elas moravam no mesmo bairro, iam e voltavam juntas).
Até que um dia, depois de mais uma de suas atitudes absurdas, resolvi me afastar de vez da C. Conversei com ela, disse tudo que eu pensava e tirei meu time de campo. Falei com a X, depois, e percebi que ela também não estava gostando de algumas coisas que a C fazia.
Com o tempo, ela também se irritou e acabou se afastando da tal.
Conhecemos outras pessoas, formamos outro grupinho – o “grupinho da frente”, como passaram a nos chamar. Passamos a conviver muito próximas, fazíamos quase tudo da faculdade juntas e comecei a perceber nela duas coisas que inicialmente me intrigavam mas que depois passaram a me incomodar: o excesso de dependência que ela tinha das pessoas (aceitava fazer algumas coisas mesmo não querendo só pra não ficar sozinha) e os episódios de chateação que ela tinha, sem explicação (eu perguntava a todo momento o que estava errado, o que estava acontecendo mas ela nunca falava nada, dizia que estava tudo bem – era óbvio que não estava). Ela raramente fala de si ou de sua família, das coisas que gosta, dos seus problemas. E, às vezes ela fica estranha, calada, emburrada. Não dá pra saber se é comigo, com alguém do grupo ou se ela está com problemas fora dali. Foi aí que percebi claramente que ela não confiava em mim, que ela não se sentia bem comigo e que ela não costumava ser sincera a respeito de seus sentimentos.
Era claro para mim que alguma coisa entre nós estava errada. Nós somos muito diferentes e passei a desconfiar que ela não lidava bem com isso.
Nessa mesma época, comecei a conhecer melhor outras pessoas, me envolvi com alguns projetos da faculdade, do Centro Acadêmico. Eu queria ficar amiga do máximo de pessoas legais que eu pudesse conhecer. Eu queria conhecer o máximo de gente para poder sentir com quem eu me identificava mais, além do meu grupo. Tentei “levá-la” comigo mas ela não quis. Com tudo isso, fomos nos afastando... Não sei quem foi se afastando: se eu querendo fazer e conhecer tanto ou se ela por não se sentir “à vontade” comigo, por se divertir mais e se identificar melhor com as outras meninas. Acho que as duas foram.
Acabei me “adaptando” à nova situação. Tinha coisas para fazer, tinha pessoas com quem eu queria conversar...
Ela passou a ficar cada vez mais estranha comigo - tinha mais algum problema além de seu mal-estar habitual. Não sei se por não concordar com o que eu estava fazendo ou por não querer se envolver com as pessoas com as quais eu estava me envolvendo, ou ainda por não aceitar que eu não me dedicava tanto a nossa amizade quanto eu fazia antes.
Essa “incompreensão mútua” foi piorando. Eu não entendia o que estava acontecendo com ela, por que ela agia daquela forma e ela não entendia o que eu estava fazendo. Ela já não me ouvia mais, só ia com a R e a P para cima e para baixo e, muitas vezes, não me chamavam. Eu ia conversar com ela e ela ficava quieta, como se não estivesse minimamente interessada. Fui ficando preocupada mas deixei quieto. Não sabia bem o que fazer, não estava entendendo nada. Talvez eu estivesse fazendo algo parecido com ela, sem perceber.
Num dia, teríamos aula de Fisio Membranas e, em dupla, faríamos uma simulação no computador. Eu fiquei procurando-a, esperando-a e ela não apareceu (até então tínhamos feito todos os trabalhos juntas). Fui à sala de computador e a F veio me perguntar se eu estava sozinha, se podíamos fazer juntas. Eu aceitei, lembrando das tantas vezes que guardei lugar para a X nas aulas e ela foi sentar em outro, sem sequer perceber, ou se importar onde eu estava. Quando ela chegou ficou brava, chateada, sei lá o que. E esse sentimento dela perdurou por vários dias – eu perguntando umas 10 vezes o que estava acontecendo, se ela tinha ficado chateada e ela dizendo que nada, que estava tudo bem e evitando ainda mais falar comigo.
Vários dias depois, ela me parou no meio de um monte de gente (na saída de uma aula) e disse que depois queria conversar comigo. Disse isso e virou as costas. Fiquei esperando, esperando, esperando pela conversa e nada. Achei que ela tinha se arrependido e não insisti porque eu já tinha tentado conversar antes e ela me ignorava sempre. Pra que eu ia perguntar novamente o que estava acontecendo? Para ouvir outro “nada” e assistir sua tradicional virada de costas? Não. Desencanei da conversa com a certeza de que ela não queria mais. Até que alguém veio me dizer: “Ela acha que você não quer conversar”. Como assim??? Ela disse que depois queria falar comigo e queria que eu ficasse correndo atrás? Sem nenhuma vez dizer: “vamos conversar agora”, ela simplesmente supõe que eu não queria conversar? Grave incompreensão mútua.
Pois bem, já que ela não é capaz de tomar uma atitude, fui atrás para esclarecermos as coisas.
Foi uma conversa horrível. Eu não estava preparada, eu estava chateada e ela, mais do que eu. Meu instinto de defesa, de “não mostrar-me fraca” me fez manipular certas informações, omitir algumas coisas que me feriram; me fez responder de modo “não me importo nem um pouco com seus sentimentos”. Confesso que naquele dia fui cruel. Não com a intenção de o ser mas para me proteger, simplesmente porque não sei lidar com sentimentos...
Mas, nem tudo foi errado. Falei muita coisa que queria, ouvi muita coisa que não queria mas precisava. Enfim, acabei pensando bastante e tentei melhorar, fiquei mais perto, tentei restabelecer o vínculo... E senti novamente que ela não queria, que ela achava que só eu estava errada, que só eu tinha que mudar.
Por mais que eu tentasse, nós não conseguíamos mais conversar. Quando eu precisava de um conselho e contava algo, ela ficava com aquela cara de “que saco!”, ficava muda ou novamente virava as costas e eu ficava sem graça por saber que a estava chateando. Ela não contava nada para mim, mal falava comigo. Eu tentei insistir algumas vezes mais, porém, claramente ela não se sentia à vontade.
Cheguei a pensar que eu podia estar exagerando ou imaginando coisas. Mas, numa conversa com uma outra amiga, ela comentou que achava estranho o jeito que a X me tratava. Ela disse que tinha reparado que quando eu estava junto no grupo, ela mudava completamente, ficava muito mais calada, séria. Essa amiga disse ainda que percebeu que quando eu contava alguma coisa, a X ficava muito esquisita. Realmente não era minha imaginação.
O tempo foi passando assim. Havendo sempre esse curto-circuito. Eu até cheguei a escrever uma carta para ela sobre isso, para tentar entender melhor o que estava acontecendo. Mas desisti de entregar, pelas circunstâncias, ou por medo do pesadelo da incompreensão, sei lá.
Até que, mês passado minha mãe ficou doente e minha vida desmoronou. Tive problemas seríssimos, passei dias dificílimos, fiquei mal, estava perdidaça. Precisei tanto, tanto de uma amiga, alguém que ficasse do meu lado, que me oferecesse um ombro, um apoio ou simplesmente o ouvido. Tentei contar pra ela, tentei conversar com ela mas ela mudou de assunto. Outra vez tentei e ela virou as costas para mim dizendo que tinha que fazer outra coisa. Tentei novamente e nada. Isso me chateou ainda mais. Várias pessoas em volta perceberam o quanto eu estava mal, muita gente (alguns que eu nunca podia imaginar) se preocupou comigo, me ofereceu ajuda, ficou do meu lado. Mas ela, justamente quem eu mais queria comigo, não estava lá, nem sequer se importava.
De vez em quando, ela perguntava da minha mãe mas se eu começava a falar algo ela fazia aquela cara.
Uma outra amiga nossa disse que a X não sabia como lidar com isso, não sabia o que fazer. Mas eu não queria que ela soubesse fazer nada, eu só queria que ela estivesse do meu lado, que ela me ouvisse sem aquela cara de saco cheio... Naquele momento tive a certeza do que eu já desconfiava: ela não era tão minha amiga quanto eu queria ser dela.
Foi muito duro, foi muito triste. Eu já estava mal e não era possível que alguém quisesse compreensão de mim. Como é que eu, sofrendo como estava por tudo, compreendesse que minha amiga me ignorava por simplesmente não saber lidar com a situação. Não. Eu não entendo e acho que ninguém pode cobrar isso de mim.
Em um dia posterior li o blog dela que continha umas partes do tipo: “Vejo as pessoas sofrerem ao meu redor e nem ofereço uma palavra de conforto sequer? Que tipo de amiga sou eu?”. Exatamente as perguntas que eu estava pensando dela. Por aí, percebi que ela tinha plena consciência que eu estava sofrendo, ela sabia o quanto eu estava precisando dela e, mesmo assim, se abstinha, mesmo assim, não moveu um dedo sequer para me ajudar. Isso piorou muito tudo. Eu não conseguia mais ficar perto dela, não queria sofrer mais, não queria me iludir mais, achando que ela podia mudar. Ela é assim e não há nada que eu possa fazer.
Logo ela percebeu que dessa vez eu estava estranha e veio me perguntar: “Você está brava comigo? Se estiver, fala porque eu não quero nenhum problema, nenhum mal entendido”. Brava??? É claro que eu não estava brava. Não tinha porque estar. E foi isso que respondi. Eu estava chateada, estava triste. E com essa pergunta fiquei mais ainda porque ela veio saber se eu estava brava com a única intenção de evitar problemas para ela e não porque ela se preocupava comigo.
Logo depois disso, parei para pensar e percebi que o que eu estava fazendo era idiotice, era burrice. Ela não tem obrigação nenhuma de fazer o que eu quero, de me escutar, de me ajudar, de corresponder as minhas expectativas. E é exatamente essa a palavra: expectativas. Naquela conversa que nós tivemos alguns meses antes, eu a acusei de ter formado expectativas irreais sobre mim. Mas em nenhum momento eu parei para pensar que eu estivesse fazendo o mesmo. Em nenhum momento até aquele. Compreendi, então, que estava exigindo demais dela. E finalmente cheguei à conclusão que não era esse tipo de amizade que eu queria.
Para ela, ser amigo é estar por perto a maior parte do tempo, é fazer trabalhos junto, é acompanhar para todo lugar.
Para mim, ser amigo é trocar idéias, trocar experiências, trocar confidências. É ajudar-se mutuamente sem esperar nada em troca. É estar junto e se sentir importante ou estar longe e saber que a distância não os separa. Uma vez uma das minhas melhores amigas me disse: “Nossa! Às vezes a gente fica meses ou até anos sem se falar e quando nos encontramos é como se o tempo tivesse parado naquele último dia em que nos vimos. O tempo se tornou impotente entre nós. Nos falamos depois de tempos e o vínculo está lá, intacto”. Isso para mim é amizade. Mas só para mim... infelizmente.
É óbvio que os dias que se seguiram foram horríveis. Aliás, foram ainda piores porque minha mãe havia piorado, meu pai estava pirando (além da doença da minha mãe ele estava muito preocupado porque enquanto ela não melhorasse, ele não poderia voltar a procurar emprego e o caixa já está no vermelho).
Eu perdi um pouco a noção do que estava fazendo. Vários sentimentos ruins, várias lembranças que eu gostaria de ter esquecido vieram à tona e meu cérebro, à todo vapor, começou a juntar as informações, organizá-las de acordo com as pessoas envolvidas, me fazendo chegar à conclusão que muita gente nessa faculdade já havia me passado a perna (ou em amigos meus) e pisado por cima do corpo desacordado. Fui “investigar” algumas coisas e me deparei com informações ainda piores. Pois bem, acabei escrevendo sobre isso no meu blog, num post nada legal.
Aí veio o problemãozão: a X, que não tinha nada a ver com essas histórias das rasteiras, achou que eu estava falando dela e, não sei por que raios, ela sofreu com isso.

Não consigo entender. Juro que tento mas não consigo. Não sou capaz de tal abstração. Não entendo:
- porque ela sofreu se não se importa comigo
- o que ela considera Amizade
- por que ela não confia em mim, por que ela não fala
- se ela valoriza minha companhia, por que nunca me chama para nada
- por que ela valoriza minha companhia se me acha tão chata, se meus problemas a incomodam tanto
- o que ela vê de tão errado nas coisas que eu faço
- da onde vem essa capacidade dela de dedução errada, capacidade de ouvir algo ao longe e mesmo sem entender uma só palavra ter a certeza de que estão falando mal dela (será que é excesso de insegurança?)

As pessoas perguntam: por que vocês não sentam e conversam de uma vez?
E eu respondo: porque não adiantaria. Porque não somos sinceras nesse tipo de conversa entre nós, porque não consigo expressar meus sentimentos pra quem eu sei que não daria valor, porque eu manipularia informações e a faria sofrer mais... Porque ela não é sincera sobre seus sentimentos, porque ela não fala tudo que gostaria, porque ela não me considera uma boa ouvinte... Porque ela não deixaria de se constranger com meus problemas só porque conversamos, porque eu não deixaria de fazer minhas muitas coisas na faculdade, não deixaria de dar atenção aos meus amigos para ficar o tempo todo com ela (como ela queria), porque ela não passaria a confiar em mim de uma hora para outra... Essa incompreensão mútua não acabaria com uma conversa, já tentamos e não adiantou.
Também porque ainda estou muito chateada, muito magoada... não só com ela mas comigo por dar tanto valor a certas coisas irreais, por ser tão utópica, por ser tão eu. Preciso parar um pouco, pensar, preciso que minha mãe melhore, que minha vida volte ao eixo. Preciso que o tempo leve o carvão da janela e que a chuva lave os resquícios.